
• Luiz Fernando Aquino – jornalista (lufas65@yahoo.com.br)
O genial Paulinho da Viola costuma dizer que não sente saudades, que não consegue se imaginar em um tempo que não o presente. Diz até que acha engraçado quando alguém lhe fala sobre emoções de um tempo que não viveu ao deparar com determinada obra – música, neste caso. E o próprio Paulinho explica: talvez não seja saudade o que você sinta, mas uma forma de reação emocional à obra, independentemente do tempo em que ela tenha sido composta. Ou seja, a obra é presente.
Parece complicado? É não. Ainda segundo o nosso sambista-pensador, a saudade anula o tempo. Fantástisco! Não é à toa que o cara é o cara. E o que é saudade, então? Lembranças de um tempo que não volta mais? E o que é tempo, fora da mera percepção cronológica? Normalmente, alinhamos os fatos na vertical, é preciso que ordenemos as coisas em um antes, durante e depois. Mas se a saudade anula o tempo, no que eu fecho com o mestre Paulo César, o que fazemos das lembranças esparsas pelo tempo?
Toco no assunto por conta deste 25 de setembro. Há cinco anos, morria o criador da Banda Itinerante, Irajá de Almeida Gutierres, o Mestre Irajá. Partiu ainda no vigor dos 59 anos e com um projeto a realizar, o braço social da Banda Itinerante. Já aviso logo que não se trata de comparação. As coisas tomam o rumo que precisam tomar. A vida e a fila andam, a despeito de nossas idéias e/ou vontades.
A Banda Itinerante tem hoje um outro perfil, sem conceito de mérito. Uns imaginavam de um jeito, outros, de outro. Prevalece, sempre, a vontade de quem faz, de quem toma a iniciativa. E as diferenças precisam se acomodar em um processo de diálogo, de convívio, de exposição franca dos pontos de vista, sempre no âmbito do respeito e da cordialidade. Afinal, cada um faz a sua história. Quem não faz, conta a história dos outros.
Eu, como tantos, conheci a Itinerante ao redor daquela grande mesa espichada, bicando que alguém deixasse uma caixeta (a Nete, em especial) de lado para, então, atrapalhar o samba. Foi na Praiana a primeira vez, em 2000, se não me engano, levado pelo Renato Dorneles. Nossa, aquilo era um sonho! O samba de roda, aberto, rodando pela cidade. No comando de tudo, Mestre Irajá, de uma nobre fidalguia. Recebia a todos como se fosse a sala da própria casa.
As coisas mudam, evoluem, ficam diferentes. Alguns, nostálgicos (ou conservadores mesmo, no fino sentido do termo), preferem o modelo antigo ao moderno. Um dos sonhos do Irajá era uma sede para a banda. A banda tem uma bela sede, um ótimo espaço. Mérito das pessoas que o sucederam. Agora, por esses dias, será lançado o documentário “Banda Itinerante – a velha guarda do samba gaúcho”. Será também uma ótima oportunidade para todos se reencontrarem com os princípios que alimentaram a iniciativa do Mestre Irajá.
Ainda que refratário à ideia de saudade, vou me socorrer (de novo) do genial Paulo César: “Eu não vivo no passado, mas o passado vive em mim”.
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