segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Por que o Carnaval esqueceu do Almirante Negro

Postado por Luiz Fernando Aquino - jornalista e pesquisador

Um dos poucos, se não o único, herói popular deste país é um gaúcho. E é um negro. Chama-se João Cândido. Nasceu em 1880, na Vila São José, em Encruzilhada do Sul, então distrito de Rio Pardo. Foi ele quem liderou o movimento que ficou conhecido como a Revolta da Chibata, em 1910, pelo fim dos castigos (chibatadas) impostos aos marinheiros, negros, em sua maioria.
Que a historiografia oficial sofra seus costumeiros lapsos é até compreensível. Agora, por que razão será que nenhuma escola de samba se lembrou do centenário da Revolta da Chibata e não tenha feito disso um enredo? É possível que o tema não se preste a uma ópera popular como a que as escolas levam para a avenida.
Seria, imagino, um enredo de difícil montagem – dor, humilhação, prisão, massacre e morte de 16 de 18 prisioneios (sufocados pela cal despejada em em um cúbiculo escuro e úmido), traição, esquecimento. Já ouvi dizer de especialistas do Carnaval que um enredo, necessariamente, deve ter um aspecto festivo, para cima. Talvez por esta razão até hoje o Carnaval ainda não tenha homenageado o Anjo Negro, o gaúcho e são-borjense Gregório Fortunato, o único a pagar com prisão e a vida pelos episódios de 1954 e que levaram Vargas ao suicídio.
Agora, Brasília, a capital federal (aquela espetacular ilha da fantasia), que no próximo ano faz 50 anos, será cantada em verso e prosa por pelo menos quatro escolas de samba do país, entre elas a Beija Flor de Nilópolis, do Rio de Janeiro, e a nossa União da Vila do IAPI, aqui de Porto Alegre. Hoje, ironicamente, Brasília está mais para tragédia do que para comédia – não deixa de ser engraçado. Ainda assim, será enredo. João Cândido, não. Este ficou esquecido, pelo menos pelas escolas de samba, ironicamente um genuíno reduto do povo negro, que não raro cobra pela preservação de seus valores e memória.
Agora, neste seis de dezembro, faz 40 anos que João Cândido morreu. Era uma tarde chuvosa. Além do esquecimento, tinha por companhia um câncer. Foi enterrado no dia seguinte, no Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro. Cem anos depois, as chibatadas, hoje, são cruéis metáforas do esquecimento que lanham a memória da história desta grande nau chamada Brasil.

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